Jorge Innocencio da Costa comenta: Memórias do morro Imprimir E-mail
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Escrito por Portal   
Sáb, 18 de Fevereiro de 2012 10:38


Lembro bem que, quando adolescente, dizia para minha mãe que havia nascido no lugar errado e na época errada. Gostaria de ter nascido nos anos trinta, em algum morro do Rio.


Muitos diriam que era louco ao fazer tal afirmação, mas estes não conheceram o morro de outrora, onde o malandro não passava de um mal pagador e o som que habitava a noite era o do samba.


Por entre barracos da Vila Isabel viveram poetas que entoavam suas canções noite adentro, dentre eles o imortal Noel Rosa, que partira em maio de 37, bem em frente à Praça Sete que era o celeiro dos “magos do samba”.


Inspirado por um barraco qualquer, Silvio Caldas e Orestes Barboza descreveram, com toda nobreza que era devida, as peculiaridades do morro. Falaram das cabrochas que eram as musas dos malandros e por entre folhas de zinco perfuradas compuseram o chão de estrela.


Reza a lenda que a única violência que havia por ali era o silencioso derramar do sangue de algum gato, que não fora malandro o suficiente e acabara virando tamborim.


Se ainda estivessem no morro, certamente seus sambas seriam bem mais lacônicos com títulos que outorgariam ao morro a alcunha de “morro do lamento”.


O som que ecoa hoje por entre as habitações humildes é o do estampido, que em ritmo insano faz parceria com gritos dolentes de mães que assistem aos seus filhos partirem para o rol dos imortais. E, não raro, se veem alamedas tingidas por um vermelho de tonalidade mordaz, ilustrando que a morte passou por ali.


A noite que amavam foi sumariamente banida do cenário carioca. O que se vê por ali são pessoas que não chegam a viver, nem como homens, e são caçadas como animais. Que têm como único anseio esperarem a novela para se entreter.


E se perguntarem: onde estão as crianças? Ouvirão uma voz monossilábica entoada pelo senhor das moscas a dizer que foram levadas pelos homens.


Elas tombam em baque seco, serram seus lábios virginais e abolem qualquer esperança de terem futuro digno longe dos “morros do lamento” e enquanto esperam a partida em seus caixões cândidos, símbolos da pureza que lhes foi roubada têm como coxim um jornal qualquer, onde está estampado em letras e fotos garrafais a lateral de uma Ferrari que foi danificada na noite de glamour em São Paulo.


Sem qualquer pompa ou cerimônia, simplesmente, nossas crianças partem...


Texto cedido por Jorge Roberto Innocencio da Costa

 

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Comentários  

 
+3 #1 é a pura realidade...carlos alberto 19-02-2012 10:11
é a pura realidade Jorge, hoje em dia se acha mais bala perdida do que amor e beleza nos morros do Rio...
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